Os dispensáveis do processo

Abril 14, 2022 0 Por mpcoutinho02

 

A tentativa de instaurar a igualdade nos intervenientes do processo de ensino, resultou na inopinada inversão da pirâmide hierárquica no processo ensino-aprendizagem. Muitos dos que por tudo e por nada criminalizam os professores, exercitam agora a sua memória selectiva quanto à realidade mais austera em que estudaram, em que foram sujeitos aos rigores punitivos da escola e da família, aos quais não só sobreviveram como alguns aludem, como exemplos da severidade ao tempo necessária. Não creio que possa o enquadramento histórico explicar e justificar todos os exageros perpetuados pelos docentes e pelos pais no passado, mas creio igualmente que também não pode agora justificar, toda a impunidade que os alunos beneficiam no que ao seu comportamento escolar diz respeito.
O aproveitamento da má memória coletiva associada aos corretivos aplicados com a cumplicidade geral da sociedade até aos anos 90 do século passado, não podem agora ser a fundamentação para uma espécie de justiça histórica, que ao atropelo da verdadeira equidade, vinga os docentes do presente pelos erros do passado e radicaliza as opiniões públicas contra os profissionais da educação. Hoje são os docentes que experimentam o medo, que são escrutinados todos os dias pelos alunos e pelos pais, culpados por todo o insucesso escolar, por todo o insucesso estatístico, pelas dificuldades de inclusão social dos alunos e enquadrados numa carreira em que é matematicamente impossível ascender ao topo. A manipulação da opinião pública relativamente à classe docente chegou a ser usada como “bode expiatório” na criação de falsas crises políticas, arquitetadas para aplicar austeridade às carreiras dos professores e alargá-la a toda a função pública. Enquanto isso, sucede que os alunos passam automaticamente, infernizam as aulas, executam cada vez mais e só, atividades que vão ao encontro dos seus interesses e apenas com um desempenho extraordinariamente negativo reprovam de ano. Alunos, pais, poder local, são pares em superioridade, e os docentes o elo mais fraco da comunidade.
Na classe, cresce a resignação. As ofensas à dignidade dos professores estão sempre a aumentar, enquanto, opostamente, as denúncias aos abusos à sua dignidade, sejam elas físicas, verbais, individuais, de grupo ou simples omissões cirúrgicas à importância do papel que desempenham tem vindo a diminuir. Sempre que alunos se agridem entre si, com mais ou menos impacto na comunicação social, a consequência é serem alvo de um processo e como consequência irem uns dias para casa jogar videojogos. Da mesma forma, se os alunos agridem os professores, são notícia na escola, vão uns dias para casa e regressam alegres depois de um breve interregno. Por sua vez, quando professores agridem alunos, são criminalizados, demonizados na comunidade, sobretudo nos meios de comunicação social, motivo de milhares de comentários ressabiados nas redes sociais, banidos da escola e proibidos de voltar a exercer a profissão. As remotas agressões que os professores praticavam são hoje justamente penalizadas, mas o alarido que se desenvolve à sua volta é grotesco, vingativo, sensacionalista, ressabiado e em muitos casos nada ingénuo.
O revanchismo e a desvalorização do papel docente é sorrateiramente apoiado pelos partidos habituados a exercer o poder, serve os interesses orçamentais de políticos que governam frivolamente para 4 anos de mandato, sem nunca avaliarem as consequências das suas agudezas no longo prazo. Em vez de valorizados, os professores são tratados como dispensáveis, obsoletos, os primeiros a serem dispensados numa cadeia de valor em que as profissões serão secundarizadas pela robotização, em que tudo quanto servir o propósito de estigmatizar o seu papel e esvaziar o seu poder para reduzir ainda mais os seus salários tem acolhimento. O resultado é a falta de professores que já se regista e que será o maior obstáculo ao sistema num futuro próximo.
O autoritarismo do passado não devia justificar o desequilíbrio hierárquico inconsequente a que se assiste, sobretudo quando a balança pende para o lado de inocentes, empoderados, decisores dos conteúdos e das regras na sala de aula, maioritariamente menores, a quem a escola, e muitas vezes a família, não proporciona as devidas lições de ética e maturidade.
Desvalorizar os professores é rendermo-nos ao sensacionalismo, ao populismo, é deixar para as gerações futuras a responsabilidade de resolver uma divida de valores equivalente à divida financeira, por ventura bem mais difícil de debelar, mas igualmente fácil de ignorar.

 

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